26 dezembro 2007

“Produto” Traduzido para Arquitetos: Projeto Arquitetônico (quando entendi o conceito de “alienação”)



Há algum tempo atrás, conversava com amigos sobre o filme “Tropa de Elite” que estava prestes a ser lançado no Festival do Rio, mas que já estava disponível para “download” na internet denunciando, assim, a nossa indústria de pirataria.

Tentávamos entender o porquê desse fetiche brasileiro pelo produto pirata e a “pronta resposta” colocou a culpa na educação, ou melhor, nas fracas bases em que consiste nosso sistema de educação que nos distancia da ética. Mas até esse ponto, não avançamos muito, pois a o grande problema dessa educação frágil é fazer com que não enxerguemos o processo que um filme sintetiza. Quando o temos nas mãos, levianamente vemos ali apenas um produto.

Nesse momento também entendi porque tenho me incomodado tanto com um curso de história da arte que tenho assistido: o professor é sensível à imagem que projeta em seus slides, a imagem o toca, mas não consegue passar a profundidade que faz de um Monet um Monet. Pois da mesma forma que vemos o filme apenas como um objeto, mesmo tendo conhecimento sobre dados históricos, e por um equívoco em sua formação, ele é impelido a ver a obra (e não a arte) como um agente autônomo, ou seja, descreve uma imagem que “tenta ser” compreendida apenas por aquilo que está ali materializado.

No entanto, se hoje vemos Monet como um substantivo é porque no final do século XIX ele estava sendo criado e sua beleza é por nós cultuada por ser a síntese do processo (tempo) que representa e por representar a gestação do que hoje compreendemos como arte. E por isso ele é singular. Algumas pinturas de Monet não são apenas um produto estéril, mas sim a síntese de tudo que fora produzido até então e as centenas de possibilidades que sabemos que projetou e que ainda enxergamos ao contemplá-lo. E é isso que dá a “Impressões do nascer do sol” ou “Le Boulevard des Capucines” (imagem à cima) uma força que transcende a sua imagem. Essa força somente pode ser apreendida a partir de um acordo de valores que chamamos de cultura e apenas assim podemos compreender o papel da educação, quando nos apropriamos da educação como transmissora de cultura, ou seja, aquela que nos ajuda a construir de forma crítica os valores por nós compartilhados.

O que me entristece é observar que a transformação dos processos em objetos esvaziados também tem se tornado visível na arquitetura. As construtoras, que agora tem capital aberto, são invadidas por “jargões econômicos” e planificaram as edificações, os apartamentos e os futuros lares sobre a alcunha de “produto”. Ou seja, a arquitetura produzida que vinha atender a demanda de uma morada deixa de ter sentido ao passo que seu valor é apenas de mercadoria.

Isso é uma grande lástima! Já anunciaram a morte da história, a morte da arte e agora, o homem sem encontrar sentido para a existência da sua própria morada podemos decretar a morte da arquitetura também. Mas o mais grave talvez seja perceber o completo aniquilamento do indivíduo que vazio de sentido e valores se agarra ao valor de mercado para justificar o que é.

Em meio a esses sentimentos que misturam descontentamento e pessimismo me pego refletindo sobre o ensino da história como ferramenta que desarticula esse cenário. Pois é necessário tornar latente para o indivíduo o mundo que o cerca (decifra-me ou te devoro) e para isso mostrar o processo de sua construção para que seja vivenciado seu “peso” (o peso do mundo / a transcendência dos objetos), fazendo, assim, que ele se apodere desse mundo e que possa, de forma consciente, dar continuidade a essa construção.